The day after

A madrugada do dia 22 de janeiro foi sem sono, ouvindo sirenes e passeando pelo meu apartamento. Obviamente, so em pensamento. Mas nao um pensamento provocado. As imagens apareciam na minha cabeca mesmo que eu estivesse pensando em outra coisa.

Incrivel como eu via tudo nitidamente. Sabia onde estava cada objeto. Entrava nas gavetas, subia na estante de livros, olhava por tras dos sofas. Me sentia um fantasminha entrando no apartamento real.

Recebemos durante a madrugada a informacao que o predio todo havia sido destruido e estava inacessivel, e que o centro de recreacao de Edgewater estaria funcionando como um hub para informacoes aos moradores. Fomos eu e meu marido ate la no dia seguinte cedo para entender os proximos passos.

Antes, passamos na frente do predio. Ainda havia bombeiros jogando agua. Meu marido nao quis parar mas eu espichei meus olhos ate onde consegui, e deu pra notar que meu apartamento tinha, sim, sido atingido. Eu tinha uma leve esperancinha... mas ja era. Nao sei muito o que eu senti na hora. Hoje sei q estava em choque. Onde aparece o jato de agua, deveria ser meu apartamento.

Nesse video abaixo, da CBS, tambem vejo que do meu apartamento, nada restou. Das janelas a esquerda que sobraram quase intactas, brancas, o meu seria o segundo andar a direita delas. A janela caida eh a do quarto dos meus filhos.

Incrivel a organizacao no centro de recreacao: logo na entrada queriam saber se voce era residente do condominio ou voluntario. Os moradores eram dirigidos a uma sala, onde funcionarios do condominio marcavam seu nome, apartamento, quantas pessoas moravam la e se estavam todos bem. Em seguida, davam algumas orientacoes e seguiamos para o ginasio, onde todas as seguradoras estavam com mesas montadas, processando as " claims".

Enquanto eu estava na fila, resolvi checar o Facebook. E a primeira mensagem que vi foi da minha amiga Cris Vieira dizendo " O condomínio onde meus amigos moram foi destruído. Hora dos amigos entrarem em cena". Junto a essa mensagem, o link para um fundraiser criado por varias amigas em nome da minha familia.

Na hora que vi eu so abri a boca em choque. Em seguida, cai no choro, no meio do ginasio. Nao sabia o que pensar, nao sabia o que sentir - se me sentia envergonhada, pq de certa forma acabamos com nossas fragilidades e necessidades expostas. Nao sabia se achava incrivel, pq ate entao nao havia me dado conta que nao tinhamos mais nada alem do carro e da roupa do corpo e que precisariamos de mais recursos do que provavelmente tinhamos para recomecar. So sabia estar muito, muito, MUITO emocionada. Foi uma reacao sem esforco, o choro saia convulsivo. Que se repetiu qdo vi outro desses aberto no Brasil pela minha querida Selma.

Ainda em choque, continuava a receber muitas mensagens via SMS, whatsapp, Messenger, telefonemas, emails. Nao conseguia dar conta - sem falar nas mensagens deixadas em aberto na timeline do Facebook. Meio que sem pensar tambem, comecei a mandar mensagens gerais pelo Facebook, na tentativa de responder a todos e deixar as pessoas ao par do que estavamos passando, ja que todos queriam saber e entender.

E a cada vez que eu checava o Facebook, via repeticao da chamada para o fundraiser feito pelos nossos amigos. Uma atras da outra, acompanhadas de mensagens cheias de muito amor e carinho. Essas sao apenas algumas delas:

Naquela tarde tinhamos uns compromissos medicos agendados onde deveriamos apresentar passaportes e fornecer nosso endereco. E pra explicar a falta de documentos sem parecer dramatica? "Bom, estamos sem os documentos porque... voce ouviu falar do incendio de ontem em NJ? Pois eh, moravamos la. Ah, e nosso endereco temporario eh...". Eu falava isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Acho que ainda em choque, sem querer acreditar, de certa forma me desculpando por atrapalhar o andamento do processo de registro no consultorio, me desculpando por nao ter documentos nem um endereco meu para fornecer. As pessoas faziam cara de luto e diziam com a voz grave: "omg, so sorry for your loss". Eu agradecia, sem entender muito o porque de tanta comocao. Afinal, ninguem, gracas a Deus, havia se machucado. Mas hoje tenho consciencia que minha reacao era fruto ainda do estado de entorpecimento que eu me encontrava. Eu repetia a frase "eu perdi tudo num incendio" em silencio para mim mesma, varias vezes, e ela continuava a nao parecer real.

Na mesma tarde recebi um telefonema do Dean da faculdade onde meu filho mais velho estuda. Ele oferecia para o Lucas free housing (morar de graca na faculdade), ajuda para a compra de um novo computador e livros, assim o Lucas nao perderia aulas. Eu agradeci, comovida com o gesto, mas sem saber o que dizer mais. Dizer " thank you" nao parecia suficiente, nao representava a intensidade do que eu sentia.... Mais um movimento de generosidade em nossa direcao. Nossa amiga Luciana correu ao nosso encontro aquela tarde somente para nos fazer companhia, conversar e ouvir. Carinho, carinho, carinho. A Sandra criou uma conta nossa num site de busca de imoveis, e eu deveria receber alertas qdo aparecessem imoveis dentro das condicoes que precisavamos. Gestos que parecem simples, mas que tem uma importancia gigante.

O comercio da regiao de Edgewater tambem se mostrou muito solidario. O cinema ofereceu uma sessao gratuita, com refrigerante e pipoca (achei tao fofo...)  para cada morador; restaurantes ofereciam jantares e almocos gratuitos; lojas da regiao davam descontos para quem foi afetado; no centro de recreacao, um verdadeiro supermercado para os moradores do Avalon foi montado apenas com as doacoes.

Como tinha que fazer compras para o Lucas levar para o dorm do college, decidimos buscar alguns itens das doacoes, pois as mensagens enviadas aos moradores diziam " por favor, aceitem as doacoes que foram feitas para voces". Que situacao, que sentimento dificil eh o de aceitar doacoes!! Me sentia mal, praticamente pedindo desculpas aos voluntarios. Eles diziam " levem isso, levem aquilo, precisam disso?" e eu, encolhida, pegando os produtos com as pontas dos dedos, muito, muito sem graca. Nao me sentia no direito de aceitar nada, com tantas pessoas em tantos lugares com necessidades muito maiores que as nossas. Pessoas que verdadeiramente dependem de doacoes para sobreviver diariamente.

De repente, dois gift cards apareceram no meu sms. E da Michaels, a loja de itens para craft. Mensagem linda da Debora:

"Everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms—to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way.”― Viktor E. Frankl, Man's Search for Meaning -Love you 
Carla querida, Um presentinho para te ajudar a continuar a Prêt-à-Partay! Muito sucesso!! Beijo, Daniela

Outros gift cards, de amigas de escola (Valeria Ebide!) e pessoas que eu mal conhecia - uma delas, Karen, eu tambem so conhecia por intermedio de cerca de meia duzia de emails, pois tinha acabado de prestar uma assessoria para elas atraves de outras amigas.

A generosidade e desprendimento das pessoas estava sendo algo inacreditavel. Overwhelming. Chocante, de um jeito positivo.

A noite so pude escrever essa mensagem:

"Dear all
The apartment is gone. All our pictures, work tools and the almost 8 years of memories were there. But we know we have everything we need: our life, our health and YOUR immeasurable love.
"Thank you" is a very vague word to express this overwhelming and grateful feeling. I am crying all the time touched by your friendship and generosity in all manners: the offer for shelter,
 food, clothing, furniture, a word, a hug, your prayers, smiles, tears, money, calls, a helping hand in all the practical stuff. We are aware and touched by every one of them. 
I am trying to answer everyone but it's been really impossible. Over time, I'll answer every one of you.
The volunteers in Edgewater have been amazing answering questions we don't know we have; Avalon workers giving long and sincere hugs; counseling from Leonia High School personally calling each family; the Dean of Fordham called offering free temporary housing for Lucas and help with his books and everything so he won't miss his schedule. Help is coming from all parts of the world, including from people we don't even know.
I hope everybody who was affected is feeling at least 1% of this LOVE you are spreading faster than the fire. It would be enough to keep them going strong forever.
We love you
Queridos todos, o apartamento nao existe mais. As fotos, ferramentas de trabalho e nossos quase 8 anos ficaram la. Mas o mais importante nos temos: nossas vidas, saude e o imensuravel amor de todos voces.
"Obrigada" eh uma palavra vaga para expressar o sentimento arrebatador e agradecido q estamos sentindo. Chorei o dia todo emocionada com os gestos de amizade e generosidade que chegam de todas as formas: as ofertas de abrigo, alimentacao, roupas, moveis, uma palavra de conforto, um abraco, suas oracoes, sorrisos, lagrimas, dinheiro, telefonemas, auxilio nas questoes praticas, Estamos cientes de cada uma e imensamente agradecidos.
Estou tentando responder a todas as mensagens mas tem sido impossivel. Ao longo do tempo responderei a todas individualmente.
Os voluntarioa em Edgewater tem sido incriveis, respondendo as perguntas que nem sabemos que temos; os funcionarios do Avalon nos dao sinceros e demorados abracos; o orientador da High School estah telefonando para cada uma das familias; o diretor da Fordham ligou oferecendo residencia temporaria gratuita para o Lucas na faculdade e ajuda com livros e material para q ele nao perca dias de aula. Auxilio tem chegado de varias partes do mundo e ate de pessoas que nao sabemos quem sao.
Espero que todos que foram afetados estejam sentindo pelo menos 1% desse AMOR q estamos recebendo e que estah se espalhando mais rapido q o fogo. Ja seria suficiente para mante-los fortes e seguindo suas vidas pra sempre.
Amamos voces
"

Isso era tudo que sentiamos naquele momento: amor.

Na madrugada, sem sono, eu tentava recuperar imagens do predio via Google Maps.