Avalon Fire in Edgewater

No ultimo dia 21 de janeiro, por volta das 4 e meia da tarde, eu estava saindo do banho qdo o alarme de incendio no meu condominio comecou a tocar. Morando ha 7 anos e meio la, eu estava acostumada a esses alarmes - que gracas a Deus nunca eram nada - e dei uma saida rapida de 10 minutos. Tinha acabado de sair do banho, estava com o cabelo ainda molhado e mal preso, coloquei um casaco e peguei a bolsa antes de sair. Meus filhos ficaram em casa.

Quando voltei, havia varios caminhoes de bombeiros, mais do que o normal,  ao redor do predio. Subi ate o apartamento e disse para os meninos descerem. Como sempre, eles nao se animaram muito - afinal, estava frio e "mas nunca eh nada!",  mas dessa vez eu insisti, dizendo " nunca eh nada, mas um dia pode ser algo". Eles vestiram os casacos, certos de que so desceriamos ate o terreo para aguardar. Nao pegaram celulares nem carteiras. E eu, que sempre nas ocasioes de alarmes pegava ao menos os passaportes, nao peguei nada. 

Decidi que iriamos ate o Trader Joe's logo ali na frente e pedi que entrassem no carro (sim, de carro - estava muito frio!). Ao final das compras, notei q havia esquecido a minha carteira em casa. Pedi que eles aguardassem e corri para o apartamento. Vi entao mais caminhoes de bombeiros de duas cidades proximas - Cliffside Park e Fairview - chegando. Nao me perguntem no que pensei na hora, pq nao pensei em nada, so imaginei que deveria haver muitos gatinhos em cima de alguma arvore... Entrei no condominio, estacionei na minha vaga e subi para pegar minha carteira. Antes de sair do apartamento, parei por um nanosegundo pensando se deveria pegar algo importante " just in case", mas pensei ' ah, nao deve ser nada serio". E fui embora. Eu nem tinha ideia que seria a ultima vez que entraria no meu apartamento. Nas escadas encontrei uma senhora que parecia perdida, perguntando se deveria descer ou aguardar. Eu disse para ela descer, que seria melhor.

Paguei minha compra e voltei pro condominio. Estacionei dessa vez no estacionamento descoberto, desci e filmei um pouco o que vi e ainda fui ao concierge retirar um envelope. Perguntei o que estava acontecendo e o rapaz disse "It's pretty bad out there", e disse que era fogo em um dos apartamentos, " o 154". So isso. Havia um helicoptero sobrevoando o condominio. Voltei pro carro e como a fumaca estava chata e o alarme nao parava, decidi que iriamos a um cafe proximo comer algo. Nao havia fogo, nao havia alarde. Quando estavamos nesse cafe,  decidi dar uma procurada no Twitter, caso alguem tivesse mais informacoes. Foi dai que vi essa imagem no feed de alguem e disse pros meninos: "Nao, isso nao pode ser nosso predio."

Saimos do cafe e voltando para casa, ja na avenida dava para ver as labaredas altas. Me assustei, mas e ao mesmo tempo fiquei tranquila, pois meu apartamento era o ultimo daquele bloco enorme, que tinha um formato de E, e o fogo estava na ponta oposta. Pensamento egoista de um segundo, pois logo comecei a lamentar pelas pessoas que estavam perdendo suas coisas. Chorei e meus filhos tentaram me acalmar.

Estacionei em frente ao condominio e me perguntaram onde era o incendio. Eu ja devia estar amortecida, pq respondi que era no condominio ao lado.

Eu fiquei ali, parada, com meus filhos, sem pensar em nada, sem falar, sem chorar, trocando mensagens com amigos, preocupados, dizendo que estavamos bem. Escrevi para meu marido (ele estava em NY) para contar e ele nao acreditou quando mandei uma foto. Quis voltar e eu disse que nao, ja que a avenida ja estava bloqueada.

O fogo andou rapido, mas eu tinha esperanca de meu apartamento nao ser atingido, assim eu poderia salvar ao menos minhas fotos. Todas as minhas fotos. Fotos do meu casamento, fotos dos meus filhos desde o nascimento, fotos dos nossos quase 8 anos aqui nos EUA. Fotos das minhas aulas, fotos dos meus projetos... todas elas. Em papel, ou guardadas em dois hard drives e alguns cds - varios backups, mas todos fisicos e todos, infelizmente, dentro do mesmo apartamento.

Meu apartamento era o penultimo daquele bloco imenso que, naquele momento, emanava uma luz forte alaranjada. Luz que ia caminhando junto com as bolas de fumaca que subiam, junto com jatos de agua que vinham de varios angulos mas que nao davam conta de acalmar a força do fogo. 

Dentro do carro com os meninos, eu ia " caminhando" dentro do estacionamento do shopping em frente, acompanhando a trajetoria daquela mistura de luz e fumaca.

Quando vi o fogo ja na face do condominio que seria a minha, desisti e resolvi ir embora. Nao queria ver o fogo queimar meu apartamento. Mas ao mesmo tempo, queria ficar, como se, indo embora, eu estivesse abandonando alguem. Nao passava pela minha cabeca que eram somente objetos la dentro.

Ja na lateral do estacionamento, para ir embora, tirei uma ultima foto. A " casinha" no telhado q estah com fogo era a da minha lareira,  dois apartamentos acima do meu.

Fui para NY pegar meu marido, antes tranquilizando amigos e minha familia atraves do Facebook - a forma mais rapida de falar com mais pessoas em menos tempo. Ninguem conseguia falar com meus filhos, pois eles deixaram os celulares no apartamento, e nao sei como, os colegas acharam meu email e mandaram mensagens super preocupadas.

Peguei meu marido e ficamos estacionados pensando no que fazer, onde iriamos passar a noite. Porque na minha cabeca seria so uma noite. Quando uma amiga escreveu ' se vcs quiserem ficar aqui nos proximos dias..." eh que me dei conta de que nao seria apenas UMA noite. Me dei conta que nos nao tinhamos pra onde voltar.

As ofertas de hospedagem eram inumeras, e nossa decisao para onde ir foi baseada em alguns fatores de ordem pratica, sendo o mais importante nao ser literalmente um elefante no meio da sala da familia que fosse nos hospedar, nao desalojar ninguem, nao criar um incomodo muito grande. E um lugar que todos nos, inclusive os meninos, ficassem de certa forma a vontade por ja termos intimidade com as pessoas.

Muita coisa passou pela minha cabeca naquela noite. Depois de devidamente recebidos e instalados com conforto e carinho pelos nossos amigos Paula e Percy, eu so ouvia sirenes o tempo todo. Ficava feito louca na Internet procurando imagens do incendio para ver se meu apartamento havia sido queimado. Comparava imagens, escrevia para perfis do Instagram e Twitter que pareciam estar no local pedindo informacoes. Nao conseguia pegar no sono. E nao conseguia pensar ' no futuro", nao pensava " o que vamos fazer"... estava amortecida e anestesiada. Tudo parecia distante e surreal.

Mas estou escrevendo sobre o incendio nao apenas para contar o que houve (ja que ate hoje muitas pessoas perguntam). Mas escrever sobre ele eh necessario para poder contar tudo que nos aconteceu depois... tudo que tem nos acontecido, o carinho imenso com o qual fomos abracados, acolhidos, amados... Nunca em toda a minha vida achei que perderia meus bens num incendio... e mais ainda, JAMAIS achei que seria, junto com a minha familia, objeto e foco de tanta, tanta atencao, tanto carinho, tanto amor, tanta doacao, gentileza e desprendimento das pessoas, amigas proximas e distantes, conhecidos e estranhos.

Vou contar aos poucos nos proximos posts.

Beijos,

Carla